Rebeca
20:04 | Author: § Tatiana Gerivazo
Meu nome é Rebeca, tenho 64 anos e sou viúva.
Atualmente vivo sozinha em uma casa pequena no interior do Rio de Janeiro.
Hoje é domingo, todos que conheço estão em casa com suas famílias e as lojas estão fechadas. O que dá a entender que é um dia entediante e sem movimento, um dia feito para dormir.
E eu estou aqui, vendo um programa qualquer na TV enquanto espero o café ficar pronto.
Essa tecnologia nos deixa cada dia mais sem o que fazer. Nem esquentar a água preciso mais.

Isso dá bastante tempo pra gente pensar na vida, o que no meu caso não é muito glorioso.
Já até me fiz o favor de retirar todos os espelhos da casa, agora só resta o do banheiro, que possui um pano por cima para retira-lo apenas quando vem alguém aqui.
O que não acontece com frequência, só se algum entregador resolver pedir para ir lá.
Finalmente! O café ficou pronto! Se tivesse que ver mais um filme de romance acho que iria surtar.
É difícil de ver que só ao final da vida é que notamos a grande mentira que o amor é.
Só parece bonito porque os poetas tentam transforma-lo em algo mais sublime, mas delicado e carinhoso. Mas ai descobrimos o porque de ninguém conseguir definir o amor, ele não existe. E quem não o encontra ou encontra alguém fantasiado dele, apenas suspira e reclama de não ter o achado.
Eu preferi confessar que é tudo mentira, somos animais racionais que sentem ciúmes, que sentem dependência de outro ser. Procuramos apoio no outro porque não conseguimos nos oferecer este. Mas depois que percebemos que estamos sozinhos, que REALMENTE percebemos. Aprendemos a viver sozinhos.
E se por acaso surge um vazio no peito, é só deitar na cama e tentar dormir, que no dia seguinte ele passa.
Depressão?
Não acredito que seja, os remédios que tomo devem ter dado conta disso faz tempo.
Acho que é só irritação, na verdade no dia de hoje, a vinte anos atrás meu marido morreu.
Câncer, essa merda devora alguém.
Essa merda me devorou.
E ainda posso senti-lo me devorar.
Posso sentir toda a frustração que caiu sobre mim naquele momento arrancar a cada dia mais um suspiro.
É como uma rosa que vai perdendo a sua vitalidade, fica murcha e com espinhos e então vai perdendo pétala por pétala.
Até o solo a absorver e a transformar em alimento para o próximo.
Se eu for que nem essa rosa, terei sorte se puder ajudar este lugar servindo de alimento para vermes.
Acho que não, já perdi todas as pétalas e o solo ainda não me cobriu.
Parece que eu tenho uma missão muito importante por aqui, porque apesar de minha infelicidade, ainda estou viva.
Porque a morte não pode só nos ouvir? Estou ocupando lugar de alguém que quer viver aqui, venha logo me buscar!
Minhas mãos velhas já não produzem nada, minhas lágrimas não tem a quem comover e não tenho com quem me preocupar.
Eu tento pensar que sou forte, por ainda não ter tomado todos aqueles remédios que guardo no banheiro de uma vez só. Mas não quero estragar minha última chance do paraíso.
E se este não existir, pelo menos não ficarei sendo dita como louca por quem for ao meu velório.... Bem, pelo padre ao menos.
Dane-se, nunca fui religiosa mesmo. Mas ainda acredito em paraíso... Malditas crenças! Nunca me ajudaram em nada em minha vida e até agora me impedem de um último desejo.
Não sei por que tanto drama, nunca fui tão apaixonada por meu falecido marido.
Mas estar sozinha é pior do que um casamento sem amor.
Em um casamento ao menos tem aqueles dias especiais em que o parceiro deve fingir amor e lhe presentear com algo. E se o parceiro não faz isso ao menos serve de ouvinte para nossas reclamações e frustrações.
Me sinto mal, ao olhar minhas mãos enrugadas e lembrar de achar que já estava no fim da vida quando fiquei sozinha.
Eu ainda tinha uma chance, mas preferi chorar, eu tinha chance de não terminar sozinha.
Mas a desperdicei, podia estar agora com essa casa cercada de netos e filhos. E nem irmãos tenho para me dar sobrinhos. Mas de que importa mesmo?
Ah! Enfim um programa começou, o documentário científico, melhor que mais um romance infeliz.
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4 Leitores ativos:

On 9/5/10 4:23 PM , Anônimo disse...

Nossa, Tati, seu amadurecimento crescente é perceptível a cada texto novo. Incrível. Parabéns por mais uma demonstração de seu talento. =)

 
On 9/5/10 4:45 PM , Anônimo disse...

Его растущей зрелости очевидно, с каждым новым текстом. Невероятно. Поздравляем Вас с еще одним свидетельством его таланта.

 
On 10/5/10 8:38 AM , Daniel Rumana disse...

vix mainha içu ta arretadu ô pai

 
On 10/5/10 7:54 PM , Scaicool disse...

Sempre pode melhorar. HAHAHAHA!

Do seu fã/leitor/taurino/quase maior de idade que te ama muito :]

Sky.