Um minuto, só para vocês.
20:30 | Author: § Tatiana Gerivazo

Tenho o céu rosa sobre mim e uma brisa tímida que tenta me enfeitiçar. O mar parece infinito ao meu ver, e só gostaria de poder nadar nele sem precisar respirar. A areia não incomoda, porque quando não há platéia para impressionar, nada de fato importa. Não estou realmente sozinha, há um grupo de amigos mais a frente, perto d'água gritado e brincando.

Brincadeiras que julgo bobas e perca de tempo, mas é só incompreensão minha.

Incompreensão daquela energia que sei que eles estão sentido e que não tem motivo certo de existir.

Apesar de compreender, digo não estar entendendo pois se realmente entendesse não sentiria tal melancolia só por observar a cena.

Adoro sentar aqui e só observar, mas sinto agonia do tempo que demora a passar e vergonha quando alguém passa me olhando.

Francamente gostaria que um cara sentasse ao meu lado, pedisse uma informação e enrolasse uma conversa até o pôr-do-sol.

Só para que eu pudesse sentir aquele prazer de descobrir um novo mundo.

Adoro isso de conhecer o mundo que há dentro de cada pessoa. Sem compromisso, só porque é um mundo e merece respeito.

Pois não se cria um mundo em sete dias, a não ser que seja Deus e não creio muito neste Deus de que tanto falam.

Um mundo leva milênios para ser construído, e me cativa um simples sorriso torto que surge ao meio de uma frase sincera.

Daquelas que a pessoa sabe que será uma idiota se tiver audácia de falar, mas que ao meu ver é só meiguice.

Eu já assumi em outros relatos odiar pessoas, mas eu reafirmo a frase que relatei logo em seguida: Eu as amo.

Por mais que me tirem as energias, me desgastem, me irritem, me magoem, me tornem fria e indiferente.

Jamais conseguiria negar-lhes um convite de conhecer seus mundos, e ver que eu as amo só pela inocência que mora atrás de tantos erros.

Das magoas, de sua coragem... Eu adoro analisar o pensamento dos outros sobre uma outra pessoa, analisar meu pensamento sobre esta pessoa e então ver a pessoa mesma desconstruir toda essa analise em uma simples hora de relato.

Nessas horas confesso que me dá vontade de pega-los no colo e não largar. Pois jamais conseguirei expressar-lhes minha admiração.

Levo tanto tempo para conseguir essas oportunidades, mas elas são sempre tão inesperadas. Eles escolhem quando que eu devo ganhar a permissão de conhecer seus mundos, e em troca eu ofereço parte do meu.

Mas confesso que não tenho um mundo próprio, sonhos e idealizações? Sim, tenho. Mas não um mundo pronto.

O que tenho mais são souvenirs que trago dessas viagens, sou só uma junção de partes de todos eles.

Ruis e boas. Isso até gera uma contradição em mim, mas não consigo me convencer de que isso não vale a pena.

Adoro me inspirar em seus mundos e então juntar dois ou três em um texto só.

Talvez mostra-los que não estão sozinhos, que temos muito mais em comum do que parece.

Ou quem sabe só quero aparecer mesmo, afinal, não tenho um mundo meu. O que posso oferecer-lhes mais?

Engraçado como acho que as vezes sou um poço de paradoxos e as vezes tenho a impressão de que este poço está vazio.

Quando está cheio, eu me acalmo. Quando está vazio olho em volta a procura de novos mundos, pra ver se uma hora consigo interligar todos estes pensamentos confusos.

(...)

Engraçado como estes meus pensamentos duraram segundos, não ajudaram o tempo a passar e nenhum pedido que fiz foi realizado. Não vai mudar em nada minha vida de fato, mas não consigo me negar a forçar estas palavras só pra relembrar de todos eles... Todos aqueles que tanto amo, que me cativaram com seus sorrisos e principalmente com a confiança que depositaram em mim sem eu lhes oferecer absolutamente nada.

Estas palavras são só para eles, só pra alegra-los. Só para que saibam que os valorizo e penso neles, e que estamos mais próximos do que posso estar ou demonstrar. Mas ainda assim são só palavras, pensamentos e reflexões... Que ficarão aqui comigo neste pequeno minuto que se passou de reflexão. E que nem sequer chegará até eles, e se chegar, não será entendido ou não saberão que isso tudo é só para eles.

Mas ainda assim estou aqui, sem pôr-do-sol e sozinha, pensando unicamente neles.

Rebeca
20:04 | Author: § Tatiana Gerivazo
Meu nome é Rebeca, tenho 64 anos e sou viúva.
Atualmente vivo sozinha em uma casa pequena no interior do Rio de Janeiro.
Hoje é domingo, todos que conheço estão em casa com suas famílias e as lojas estão fechadas. O que dá a entender que é um dia entediante e sem movimento, um dia feito para dormir.
E eu estou aqui, vendo um programa qualquer na TV enquanto espero o café ficar pronto.
Essa tecnologia nos deixa cada dia mais sem o que fazer. Nem esquentar a água preciso mais.

Isso dá bastante tempo pra gente pensar na vida, o que no meu caso não é muito glorioso.
Já até me fiz o favor de retirar todos os espelhos da casa, agora só resta o do banheiro, que possui um pano por cima para retira-lo apenas quando vem alguém aqui.
O que não acontece com frequência, só se algum entregador resolver pedir para ir lá.
Finalmente! O café ficou pronto! Se tivesse que ver mais um filme de romance acho que iria surtar.
É difícil de ver que só ao final da vida é que notamos a grande mentira que o amor é.
Só parece bonito porque os poetas tentam transforma-lo em algo mais sublime, mas delicado e carinhoso. Mas ai descobrimos o porque de ninguém conseguir definir o amor, ele não existe. E quem não o encontra ou encontra alguém fantasiado dele, apenas suspira e reclama de não ter o achado.
Eu preferi confessar que é tudo mentira, somos animais racionais que sentem ciúmes, que sentem dependência de outro ser. Procuramos apoio no outro porque não conseguimos nos oferecer este. Mas depois que percebemos que estamos sozinhos, que REALMENTE percebemos. Aprendemos a viver sozinhos.
E se por acaso surge um vazio no peito, é só deitar na cama e tentar dormir, que no dia seguinte ele passa.
Depressão?
Não acredito que seja, os remédios que tomo devem ter dado conta disso faz tempo.
Acho que é só irritação, na verdade no dia de hoje, a vinte anos atrás meu marido morreu.
Câncer, essa merda devora alguém.
Essa merda me devorou.
E ainda posso senti-lo me devorar.
Posso sentir toda a frustração que caiu sobre mim naquele momento arrancar a cada dia mais um suspiro.
É como uma rosa que vai perdendo a sua vitalidade, fica murcha e com espinhos e então vai perdendo pétala por pétala.
Até o solo a absorver e a transformar em alimento para o próximo.
Se eu for que nem essa rosa, terei sorte se puder ajudar este lugar servindo de alimento para vermes.
Acho que não, já perdi todas as pétalas e o solo ainda não me cobriu.
Parece que eu tenho uma missão muito importante por aqui, porque apesar de minha infelicidade, ainda estou viva.
Porque a morte não pode só nos ouvir? Estou ocupando lugar de alguém que quer viver aqui, venha logo me buscar!
Minhas mãos velhas já não produzem nada, minhas lágrimas não tem a quem comover e não tenho com quem me preocupar.
Eu tento pensar que sou forte, por ainda não ter tomado todos aqueles remédios que guardo no banheiro de uma vez só. Mas não quero estragar minha última chance do paraíso.
E se este não existir, pelo menos não ficarei sendo dita como louca por quem for ao meu velório.... Bem, pelo padre ao menos.
Dane-se, nunca fui religiosa mesmo. Mas ainda acredito em paraíso... Malditas crenças! Nunca me ajudaram em nada em minha vida e até agora me impedem de um último desejo.
Não sei por que tanto drama, nunca fui tão apaixonada por meu falecido marido.
Mas estar sozinha é pior do que um casamento sem amor.
Em um casamento ao menos tem aqueles dias especiais em que o parceiro deve fingir amor e lhe presentear com algo. E se o parceiro não faz isso ao menos serve de ouvinte para nossas reclamações e frustrações.
Me sinto mal, ao olhar minhas mãos enrugadas e lembrar de achar que já estava no fim da vida quando fiquei sozinha.
Eu ainda tinha uma chance, mas preferi chorar, eu tinha chance de não terminar sozinha.
Mas a desperdicei, podia estar agora com essa casa cercada de netos e filhos. E nem irmãos tenho para me dar sobrinhos. Mas de que importa mesmo?
Ah! Enfim um programa começou, o documentário científico, melhor que mais um romance infeliz.